Chamavam-lhe a “senhora dos gatos”. Assim, como nos filmes. Ela nem era excessivamente velha, nem excessivamente sozinha. Mas ninguém sabia o seu nome e assim como assim andava curvada (quem anda curvado senão para alimentar os bichos?). Dizia-se que colecionava coisas como aqueles maluquinhos que não deitam nada fora. E que compunha com o tempo verdadeiros castelos de lixo, templos de um passado que persistia em manter, ainda que podre. Mas não se sabia ao certo. Nunca ninguém ia lá.
Às vezes ouvia-se tocar o telefone. Era daqueles toques antigos e à mente vinha logo a imagem daqueles velhos telefones pretos de disco, de um dedo seboso a girar – sssssssssssssssekt – um número, sssssssssssssekt, outro número e a pessoa a falar muito alto para o som chegar ao outro lado. Mas ele tocava e tocava e tocava e tocava e aparentemente ninguém atendia. Há pessoas que detestam o telefone. E há pessoas que detestam as pessoas.
De vez em quando o elevador avariava e eu subia as escadas do prédio. O quarto andar era sempre a etapa mais dura, o contrarrelógio sufocante da subida. De cada vez que o elevador avariava e eu subia, percebia melhor o epíteto que lhe davam. Ali, no quarto andar, habitava um misto de pelo húmido, whiskas e um xixi velho, perdido numa areia há muito abandonada. Tresandava a velhice, a desleixo e nós tínhamos nojo. Subíamos mais depressa, como crianças a fugir de uma escuridão habitada por monstros invisíveis mas muito reais. Francamente!, concordávamos os dois, como é que é possível?
Só quando vimos as notícias naquele dia nos ocorreu que se calhar ela não tinha gatos. Só quando arrombaram a porta do quarto andar nos ocorreu que se calhar ela não era maluca. Só quando vimos o saco preto ser transportado para fora do prédio nos lembrámos, enterrados em vergonha, que se calhar ela não tinha ninguém.
Tranças de um tempo em que tudo era fácil
E belo.
Risos no vão das escadas
Longos corredores de aventuras
E tédios
(ó mãe, não tenho nada para fazer!)
E o tempo parado a cada instante.
Tempos sem horas e turbantes enrolados
No cabelo.
– Vai arrumar o teu quarto!
Lençóis de uma ideologia pura
(ó mãe, isso não conta!)
Toda a fantasia é bela enquanto
Dura.
Carrossel em torre de marfim,
Desejos de crescer
E mandar em mim
(quando for grande vou fazer o que eu quiser!)
– Não tenhas pressa, filha,
Um dia dás por ti e és mulher…
Vozes do tempo – que ironia,
Ai que bom seria, mãe,
Ser de novo
Pequena
(Gloriosa inocência!)
E ouvir-te dizer em tom farto:
– Ó filha, vai arrumar o quarto!
Entrou-lhe pela porta adentro como um louco. Não foi só a porta – foi o lobby, o elevador, um, dois, três, quatro, cinco, oito, dez, quinze, dezassete andares, um corredor, um pequeno átrio e finalmente: a porta. Entrou de repente, totally insane, estacando perante o rosto jovem atrás da secretária.
“Tão novo…” murmurou para dentro o homem, incrédulo e confuso. Abanava a cabeça para um lado e para o outro, como um velho cão abandonado.
“Como é que entrou aqui?”
Era uma pergunta válida, natural. A voz grave e rouca do jovem surpreendeu o intruso, por lhe encontrar um véu da velhice precoce que o aspecto imberbe ocultava impecavelmente.
Vibrava ainda no ar a indignação do jovem, cujo braço breve se lançou ao telefone, quando o homem soltou subitamente um grito animalesco: “Não!!” Recompondo-se um pouco, “Por favor, não chame os seguranças… eu… eu vou-me embora…” E ficou muito quieto.
O jovem tossicou, alargando a gravata, e desviou os olhos para o tampo da sua secretária, como que a medir o trabalho que ali esperava e que este imbecil fazia adiar.
“Ouça, não me leve a mal, mas eu tenho de seguir o protocolo. Isto é muito inesperado. Aqui por norma não entra ninguém. Vou ter de lhe pedir que saia, por favor.” O tom era firme, mas as mãos tremiam.
O homem parecia não entender. Parado, trémulo, olhava o jovem fixamente, perscrutando os seus gestos, e mordia o lábio, como que contendo um soluço.
“Eu… eu só queria olhar para si…”
“Desculpe?!” Desta não estava à espera. “O que é que disse?” Ouvira bem da primeira vez.
“Eu… fiz mal… eu sei. Eu não devia… Mas eu… precisava… eu queria…” Fazia visivelmente um esforço colossal para evitar as lágrimas. Agora estava curioso.
“O senhor queria ver-me? A mim?” Reflectiu um pouco. “Mas eu conheço-o de algum lado?”
“Não. E eu não devia conhecê-lo, mas… fui fraco…” Corou, de uma vergonha muito transparente. Respirava pesado. Recompunha-se lentamente, talvez pressentindo a curiosidade do jovem. “Não consegui evitar… eu tinha mesmo de saber quem era… como era… eu… …isto foi um erro.”
Ah não, agora já não; não ia a tempo de recuar. A curiosidade é como um bicho persistente que nos corrói com fervor enquanto a não satisfazemos. E agora, naturalmente, ele estava curioso.
“Bom, isto é muito estranho…” levantou-se. “De onde disse que me conhecia?”, dirigindo-se à janela, de costas para o homem.
“Eu… não disse…”
O jovem voltou-se, cruzando os braços. “E queria ver-me? Porquê?”
Tinha tocado no nervo. O homem tremeu das pernas, num soluço, levando as mãos ao peito como um louco. Agarrava a gola em desespero, lutando-a, torcendo-a, como se buscasse ar para respirar, prestes a perder o equilíbrio. Assustado, o jovem correu para ele, de impulso, e agarrou-o antes de cair ao chão. Abraçando-se a ele violentamente, o homem encostou a cabeça ao seu peito. Não fazia agora nenhum esforço para conter as lágrimas e os soluços, para conter as palavras que lhe queimavam a boca desde que entrara: “A minha filha… minha querida filha… foi um acidente de mota… bateu com a cabeça…” Subitamente, o jovem compreendeu tudo, horrorizado. “Eu trabalho no hospital… eu… eu vi a sua ficha… eu sei… eu sei que foi operado… ao coração… que recebeu o coração… eu queria vê-lo… eu… eu só… eu só… eu só queria ouvir o coração da minha filha bater uma última vez!”
A maneira como se encostava à janela. Como olhava vidrada para o movimento lá fora. Encostava ligeiramente a cabeça, como se o vidro embaciado fosse um ombro quente, e às vezes sorria. O que veria nesses momentos? Quem sabe. Eu só sentia o halo frio da janela, o cheiro a bafo, a vinho, a gente, a suor, a cansaço e às vezes ouvia os velhos a morderem a língua lascivos. Que arrepio. Mas ela lá estava, como sempre, indiferente a tudo. Só via o que havia lá fora. Os carros. As pessoas, loucas, para trás e para a frente. Os semáforos. A rotina. Eu, confesso, não percebia a magia. O que via era o cortejo de gente arrastada pela vida. O mesmo pedaço de percurso, as mesmas ruas, as mesmas paragens. Que há de especial nisso?
E um dia sentei-me atrás dela. Vi as ruas, os carros, gente doida nos passeios. Vi semáforos vermelhos. Cafés. Duas farmácias. E de repente, inesperada, uma epifania: em letras toscas, velhas, quase caídas, um letreiro que dizia “Máquina do Tempo”. E de repente, sem aviso, era uma criança de asas abertas a imitar um avião, correndo pelos campos da minha infância entre a esperança e a liberdade…
A ideia parece apelativa: uma universidade sem pré-requisitos, sem propinas, sem burocracias kafkianas e sem certificado ou nota de licenciatura. Romântico, fácil, austero e feito por pobres a pensar em pobres.
É esta a proposta de Bunker Roy, um indiano que teve a educação mais “elitista, cara e snob” de toda a Índia e que, tendo abertas todas as portas do mundo, as rejeitou categoricamente para ir viver numa aldeia, o que “deixou a mãe num coma.” Quis viver de maneira pobre, dormindo no chão, colhendo a sabedoria telúrica dos sábios dessa aldeia e mais tarde decidiu criar a Universidade dos Pés-Descalços, “a única universidade do mundo em que quem tiver um diploma de um grau académico tem o acesso vedado.” Roy vangloria-se ainda de que esta é uma “universidade feita a pensar nos pobres, onde se ensina e aprende o que estes consideram importante. Um universidade onde o professor é o aprendiz e o aprendiz o professor.” Too good to be true?
Há algo de messiânico em todo este discurso que me incomoda. Algo subtil, não dito, mas que está lá com a força de uma verdade revelada. Olhando para Roy e ouvindo as suas larachas sobre as Universidades, as mulheres, os “engenheiros” que se formam na sua Universidade não consigo deixar de entrever um menino revoltado com a educação que os pais lhe deram e lutando toda a sua vida para fugir a isso. Uma espécie de justificação perene de que não é um menino de bem porque abraçou a pobreza. Uma espécie de massagem ao ego consubstanciada numa estranha forma de liderança espiritual, porque não ensina aos pobres – pobrezinhos! – nada que ultrapasse as benfeitorias materiais, mantendo os seus espíritos analfabetos e ignorantes. Relativamente a todos os “engenheiros de pés-descalços” ouvi acoplada a palavra “analfabeto”. Por que será tão importante para ele frisar o analfabetismo dos seus “engenheiros”? E por que têm eles de “estudar” numa “universidade” coisas que não se ensinam em nenhuma universidade?
O que me incomoda não é o conteúdo mas sim a forma e a nomenclatura. Não me incomoda que se ensinem técnicas de utilização da luz solar, de impermeabilização dos solos, de construção… A técnica – a tecnologia – foi evoluindo ao longo da História mas foi sempre passando de boca em boca, de mão em mão, com alguns avanços e recuos (não é por acaso que durante a Idade Média desapareceu a técnica de fazer cimento, algo que os romanos dominavam e que só foi recuperado no século XVIII), mas sempre transmitida. Nas aldeias, os saberes telúricos sempre foram transmitidos de geração em geração sem propinas, burocracias ou certificados. O que é novo aqui é a envolvência: a criação de uma Universidade – e a escolha do termo é importante – que se arroga características inovadoras que de facto não tem. A única coisa realmente interessante é a criação de infraestruturas que potenciam o encontro e o contacto entre as pessoas e, como tal, a transmissão de saberes (que, de qualquer modo, não deixa de ter ecos das oficinas medievais dos artesãos onde estes ensinavam aos aprendizes a sua arte, ainda que a escala destas fossem outra…). Esta é talvez a única característica de uma Universidade presente na ideia de Roy, porque o resto, tudo o resto, me parece uma tentativa de gandhificação pessoal. Mas há uma grande diferença entre Gandhi e Roy: enquanto Gandhi desenvolveu a disciplina pessoal, a desobediência civil pela não violência, em busca de uma libertação interior de todas as contingências humanas, Roy centra-se na transmissão da técnica e saberes práticos sem desenvolver o espírito dos seus “aprendizes”, renegando-lhes uma forma de libertação interior e expansão do ser. De que outra forma se entende a obsessão com o analfabetismo?
Parece-me apenas que Roy está a tentar provar o seguinte: que não é preciso estudar, que não é preciso uma educação “elitista, cara e snob” para se conseguir criar valor e riqueza, para se conseguir dominar uma técnica. O que é verdade, claro. Mas o calcanhar de Aquiles desta sua Universidade – e a razão pela qual toda esta ideia e a maneira como é apresentada me causa uma alergia estranha – é precisamente o facto de que nela não há lugar para a educação do espírito. Não há lugar para o desenvolvimento da mente, para a libertação interior, para a criação de conhecimento – razões pelas quais surgiram as Universidades – porque se assume como um valor o analfabetismo, como prova de um ponto de vista. E assim sendo, há uma espécie de instrumentalização dos alunos da Universidade dos Pés-Descalços, que sabem tudo sobre painéis solares e estruturas de edifícios mas são incapazes de assinar o seu nome, escrever uma carta, uma mensagem ou registar os seus pensamentos. Felizmente a Universidade dos Pés-Descalços não tem papéis para assinar nem livros para ler.
Talvez me venham dizer que nem toda gente tem de estudar, que nem toda a gente é feita para saber quem foi o Aristóteles, a importância de Newton ou a teoria dialéctica da História. Mas há uma grande diferença entre a cultura e o alfabetismo e enquanto a cultura tem características intrínsecas que fazem dela algo tendencialmente elitista, o alfabetismo tem características essencialmente democráticas que o deviam tornar acessível a toda a gente. Sob a pena de os analfabetos, como bem dizia Carlos Tê, ficarem condenados “a assinar em cruz, a não ver os vultos furtivos que nos tramam por trás da luz”… É que enquanto a cultura é conhecimento, o alfabetismo é o domínio de uma técnica – a da escrita – que, uma vez descoberta, permitiu o registo de pensamentos e ideias para a posteridade, numa revolução silenciosa que foi um gigantesco passo para a Humanidade. Ao descobrir-se tal ferramenta, abriu-se uma enorme porta à cultura e é essa mesma revelação – a abertura dessa possibilidade – que acontece sempre que alguém aprende a ler e a escrever.
“Então é como uma compulsão?”
“Mais ou menos. Sim.”
E era.
Nem todas as estações têm aquele sabor. Aquele sabor íntimo – às vezes doce, às vezes não – da emoção vivida intensamente. As linhas paralelas acabam no horizonte, sempre lado a lado, sem nunca se tocarem. Projectam-se para longe, projectam a distância das partidas e o golpe abrupto da ausência: os comboios são engolidos pelo vento, o tempo passa e nem todos os que partem regressam para contar a viagem.
Há estações que são para nós casas onde continuamos a ser todos os seres intermédios que já fomos. Até o que somos hoje. O que seremos amanhã. As estações não se medem pelo tempo que passamos nelas – pouco, por definição – mas pelas marcas que nos ficaram do quanto ali vivemos. O quanto chorámos nas estações. O quanto rimos entre dois abraços e uma canção. O quanto calámos, por pressentir o vazio de mais uma partida. O quanto sentimos, tão intensamente; as lágrimas cuspidas pelo vento enquanto corríamos atrás de um comboio que levava o nosso amor, os nossos amigos, o nosso passado e o nosso futuro – que ficou por acontecer assim e vai sendo este, um entre muitos outros possíveis.
“Eu podia ter sido muita coisa, sabe?”
A pergunta não era bem dirigida a mim, embora eu fosse o interlocutor. Era talvez dirigida a um Deus ou a deuses seus, não a mim. Admito o meu preconceito quando a ouvi dizer aquilo. A vida interior de algumas pessoas deixa-me sempre fascinado, por ser maior do que a poeira de pragmatismos que eu sempre imaginara pairar dentro delas. Sim, chamem-me elitista. Concedo-vos até o arrogante. Mas não me venham depois dizer que não pensam o mesmo quando um taxista vos confessa ouvir Tchaikovsky, ou quando uma peixeira vos revela ter estudado na Universidade de Coimbra. Não encaixa, simplesmente não encaixa. E aquela frase, aquele arrependimento vago, aquela sombra de sonhos passados sem realização, impressionaram-me. Assombraram-me, se quisermos ficar dentro do vocabulário. Ela deve ter visto a surpresa na minha cara, porque se arrependeu imediatamente da confissão que me fez. Manteve o seu profissionalismo.
“Mais alguma coisa, Sr. Tavares, ou é tudo por hoje?”
Agradeci, um pouco embaraçado. Não, que era tudo por hoje.
Paguei a conta e saí.
Na vez seguinte, tentei ir de mente aberta. Estudar um pouco a moça e tentar descobrir os seus insondáveis arrependimentos. Admito, estava muito curioso. Demasiado curioso.
Recebeu-me com o sorriso rasgado de sempre, o aperto de mão e o braço apontando para a porta: “Vamos?”
Lá fui, deitei-me e esperei que ela entrasse.
Pela primeira vez, fixei-me nela com mais detalhe. Não era muito alta, mas tinha umas lindas pernas que acabavam redondinhas na anca. Era relativamente bonita, embora não fosse um espanto. Talvez fosse a delicadeza do rosto ou os caracóis pouco cuidados caindo em cascata sobre os ombros, um brilho melancólico no olhar. Sim, talvez pudesse ser maior do que isto. Havia algo nela que não encaixava ali naquele mundo…
“Hoje é só as sobrancelhas, Sr. Tavares?”
Que sonhos escondidos sob aquela voz doce e suave?
“Não, Madalena, hoje queria também fazer o peito.”
Sorriu e pediu-me que tirasse a camisa. Deslizou até à mesa onde a cera aquecia, com passinhos de bailarina russa, e enquanto mexia nos pedaços que derretiam lentamente, eu vi-a dançar pelo Bolshoi, até ela se voltar para mim, de cera em riste, e a imagem se diluir na minha mente.
Dissecar um texto literário tomando-lhe o pulso da métrica, o peso do conteúdo e a perfeição da forma facilmente se transforma na autópsia de um ser amado que antes souberamos apreciar. A ironia está em que, tal como os médicos só descobriram os segredos da anatomia dissecando corpos, também um escritor, para descobrir os esqueletos dos grandes, tem de autopsiar os textos imortais e fazer parte do paradoxo que é eles morrerem só para ele e continuarem imortais para o mundo.
“Foi feita justiça”. Obama, o homem sensato que substituiu o errático e fanático Bush, o homem dos discursos poderosos, do gesto iluminado, o homem que devolveu a esperança à América e a esperança na América ao mundo, resumiu assim a execução sumária de Osama Bin Laden: “Foi feita justiça”. Frase bárbara esta, evocando as bocas gangrenadas de onde terá escorrido vezes sem conta, durante o tempo escuro em que não havia Estado e onde quem tinha a espada tinha a força fria da vingança nas mãos – e a isso chamava: justiça.
Como se não bastasse, para além do líder do baluarte ocidental da democracia e da liberdade, ex libris do imperialismo e alvo primordial do terrorismo, vieram também todos os chefes das potências europeias congratular-se pela morte do cérebro por detrás do maior ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro. Os homens que tudo negoceiam, que tentam preceder o próprio futuro, que representam os Estados com os sistemas jurídicos mais modernos e “civilizados”, todos eles se mostraram exultantes pela vitória simbólica de tal morte na luta contra o terrorismo, deixando escorrer das suas bocas assépticas o mesmo grito bárbaro de vingança dos antepassados.
Populações eufóricas saíram às streets americanas para festejar, com grandes cartazes e a folia própria de quem é facilmente impressionável e vive num mundo em que é ténue a fronteira entre o real e o reality show, tudo não passando de um grande e chorudo concurso televisivo. Sabem que Bin Laden, o “monstro”, a “encarnação do mal”, morreu e hoje dormirão melhor porque o mundo é agora um lugar mais seguro para viver. Pelo menos assim dizem os jornais e até o Papa Bento XVI se confessou mais seguro agora que Osama está morto.
Gostava de ouvir uma voz pública que fosse a condenar o assassínio de Bin Laden. A condenar a atitude deplorável dos Estados Unidos da América e a conivência passiva de todas as instâncias ocidentais. A denunciar tal morte pelo que ela realmente é: uma execução sumária, violadora dos mais básicos direitos humanos, ilegítima, ilegal, bárbara.
Sabemos todos que Bin Laden era um terrorista, essa nova espécie de criminoso especialmente perigoso, pelo carácter fanático, errático e arbitrário, um crime tão mais difícil de julgar quanto os seus agentes morrem quase invariavelmente nos ataques que perpetram. Um criminoso, sim, responsável pela morte de tantas e tantas pessoas, mas que não deixa de ser um ser humano, um sujeito de determinados direitos básicos, pelo menos na consciência jurídica ocidental – direito a um processo, direito a ser ouvido num tribunal, direito a ser julgado. Até Eichmann, responsável pelo envio de inúmeros judeus para os campos de morte e fábricas de sabão, foi julgado. Foi condenado à morte e executado, mas teve direito a um processo, a ser ouvido e a ser julgado – e isso faz toda a diferença.
Pode sempre dizer-se que um julgamento de Bin Laden pelos Estados Unidos seria um julgamento-espectáculo, uma farsa até, e que do ponto de vista da Al-Qaeda seria de qualquer modo a aplicação da justiça ocidental, vista como mais uma espécie de manifestação arrogante de superioridade por parte dos Estados Unidos, maxime, do Ocidente. Pode dizer-se que ainda não é claro que o terrorismo seja um crime internacional (caberá nos crimes contra a humanidade previstos no Estatuto de Roma?) e que não é fácil então encontrar uma base legal para o julgar. Em qualquer dos casos, há uma dose de verdade nestas objecções e seriam reais estes riscos, nomeadamente o da mediatização abusiva estilo reality show de um tal julgamento.
O que não pode dizer-se, com toda a certeza, é ter sido o homicídio de Bin Laden uma alternativa melhor a esta, mais segura, mais civilizada, mais congruente com os valores que os Estados Unidos consideram ser virtude sua, crendo-se inclusivamente no dever messiânico de espalhar a sua verdade pelo mundo como a palavra de Deus. O que não pode dizer-se, sem sombra de dúvidas, é que foi feita justiça, sob pena de a Justiça se tornar, cada vez mais, uma banalidade que cobre de flores a carcaça fria da vingança, satisfazendo caprichos do Estado todo-poderoso do momento.
É claro que os Estados Unidos não vão sair impunes. Ao lançar o corpo ao mar, para supostamente evitar a criação de um local de culto e adoração póstuma, acabaram por criar um mártir. Razão tinha um meu professor quando dizia, cheio de ironia, que o Direito Internacional é para os pequenos e médios Estados, já que os grandes estão acima dele. Os Estados Unidos podem e fazem o que bem entendem, sem ter de prestar contas a ninguém. Só não estão acima da inevitabilidade histórica associada à vingança, que seguramente a Al-Qaeda não irá quebrar: “olho por olho, dente por dente”, ad nauseam, enquanto houver olhos e dentes para arrancar.